Há pouco tempo atrás foi divulgado um ranquing no qual o Brasil figura em primeiro lugar no que ser refere à morte entre torcedores de futebol, no qual as Torcidas Organizadas são as principais referências. A preocupação por parte do Poder Público a esse respeito pode ter como marco os meados dos anos 90 em um episódio no estádio Pacaembu (SP) , onde houve enfrentamento e casos de morte entre Torcidas Organizadas do Palmeiras e do São Paulo. A partir daí assistimos uma busca cega, surda e barulhenta do Poder Público para tentar acabar com os enfrentamentos físicos entre torcedores, chegando até a extinguir as Torcidas Organizadas, como foi o caso no estado de São Paulo. Não deu certo!
Em Belo Horizonte foi proibido o comércio de bebida alcoólica dentro dos estádios e aos redores, assim como as bandeiras de mastros de bambu (sendo que essas já foram liberadas, mas com algumas restrições). Ainda esse ano as Torcidas Organizadas de Minas assinaram o TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) que visa coibir violência entre esses agrupamentos de torcedores. Dentre outras clausuras, o TAC prevê a responsabilidade das Torcidas Organizadas como pessoa jurídica de direito privada, sendo que essas passam a ser consideradas como Associações. Outras questões como a mudança do local de concentração das TO’s em dias de jogos, mudança do local das sedes e punição com multa prevista de 50 mil para a "Organizada" que descumprir o TAC é algumas das medidas previstas. Apesar de todas essas medidas e todo o estardalhaço feito para demonstrar que algo estava sendo feito não surtiu o efeito esperado, ou seja, não diminuiu a violência entre as Torcidas Organizadas. Isso por um fato simples: uma compreensão errada e equivocada de um fenômeno social leva a se tomar medidas ineficazes.
Um simples acompanhador de jogos no Mineirão está ciente que há muito tempo não se tem violência entre Torcidas Organizadas dentro do estádio. Isso se dá principalmente pela própria estrutura do estádio e de todo aparato constituído para coibir tal violência. Esse tipo de violência só ocorre em casos específicos em que duas Torcidas Organizadas de um mesmo time, ou facções de uma mesma "Organizada" se desentendem, porém isso se torna de certa maneira fácil de identificar e de se combater. Assim também, um simples acompanhador de Torcidas Organizadas sabe que os confrontos continuam a ocorrer, e ouso a dizer que cada dia mais, principalmente em dias de clássicos pelas subdivisões das Torcidas Organizadas em pontos das regiões e bairros de BH, o que se torna uma grande dificuldade.
O que quero demonstrar com tudo isso é que as medidas que atualmente são tomadas para coibir a violência entre Torcidas Organizadas são ineficazes e continuarão a serem desde que se faça um estudo sério e comprometido sobre tal fenômeno social. Um caminho a seguir para tal compressão e que proponho aqui é tentar pensar a violência entre Torcidas Organizadas a partir da idéia de identidades relacionais conflituosas, ou seja, é tentar compreender a violência cultural entre Torcidas Organizadas. Para isso deve ser feita algumas considerações antes.
Podemos dizer em relação aos torcedores (note-se que aqui estamos falando estritamente de torcedores, deixando de lado assaltos, furtos etc..) que existem pelo menos três tipos de violência mais recorrente: a violência afetiva, a violência simbólica e a violência física. A violência afetiva:
é expressa principalmente durante a tensão do jogo, no qual um chute errado, um gol perdido ou um erro do juiz é recriminado por xingamentos dos torcedores. Esse tipo de violência engloba todos os tipos de torcedores que acompanham os jogos de uma forma mais individualizada, não sendo exclusividade nenhuma das Torcidas Organizadas. (VILAÇA, 2009, p.37).
Esse tipo de violência pode dizer que se torna quase inevitável, tendo sua causa o jogo de futebol em si e questões sociais como educação. É freqüente esse tipo de violência se desencadear em violência física, porém quando é o caso essa se torna fácil de ser combatida principalmente pela presença de autoridades policiais, sendo que até mesmo os próprios torcedores muitas vezes se encarregam de apaziguar o desentendimento. Ao proibir a comercialização de bebidas alcoólicas dentro dos estádios contribuiu-se para a diminuição da violência física ocasionada pela violência afetiva. Por outro lado potencializou o uso de bebidas alcoólicas em locais onde se tem maior ocorrência de violência física entre torcedores: no lado externo do estádio.
A violência simbólica:
A violência simbólica, aqui entendida de acordo com a tipologia desenvolvida por Dunning e utilizada por Heloisa Helena Baldy dos Reis como atitudes verbais e/ou gestuais, como em cantos, gritos de guerras e gestos, enquadrando também elementos como bandeiras, bandeirões e faixas, é um aspecto relevante dentro de uma Torcida Organizada, na medida em que também funciona na criação, manutenção e auto-afirmação da identidade de uma Torcida Organizada. (VILAÇA, 2009, p.65).
Como se pode perceber, esse tipo de violência é singular as Torcidas Organizadas e seu uso se restringe as arquibancadas dos estádios – ou bancada. A festa nas arquibancadas se refere à criatividade, variedade e competência no uso do capital simbólico da Organizada, que aos olhos de da outra Torcida rival se revela de forma violenta. Vale ressaltar que esse campo simbólico das Torcidas Organizadas que também é permeado pela violência – seja em musicas, faixas ou bandeiras – é de certa forma aceitada e estimulada pelo público de futebol. O que ocorre de forma freqüente é o transbordamento da violência simbólica se situando na violência física (pista), sendo que tanto a violência simbólica expressa em festa nas “bancadas” tanto a violência física são valores dentro da realidade das Torcidas Organizadas constituindo a identidade destas.
Ora, as Torcidas Organizadas já há algum tempo fazem parte do espetáculo futebolístico no Brasil sendo que através desses agrupamentos de torcedores que se fazem e divulgam as festas nos estádios, e que assim favorece a captação econômica tanto pelos clubes de futebol quanto por outros orgãos que atuam diretamente no estádio (como a ADEMG), são esses agrupamentos que acompanham os clubes em quase todos os estádios do Brasil e que é presença certa em todos os jogos. Além do mais é ilusório pensar que acabando de uma hora pra outra com as Torcidas Organizadas se cessariam as brigas de torcedores. Pelo contrário, correria o risco de se colocar no clandestino esses agrupamentos, o que perderia toda forma de controle existente hoje, inclusive na identificação desses agrupamentos.
O que eu proponho a pensarmos é uma forma de valorizar e estimular, dentro das próprias Torcidas Organizadas, apenas um desses aspectos, ou seja, a “bancada”, sendo que a torcida que insistisse na “pista” passaria por um processo de “perca de identidade” no qual o material simbólico utilizado para criar e afirmar sua identidade seriam recolhidos gradativamente de acordo com o uso da violência física da T.O. Ou seja, a Torcida Organizada que insistisse em ser uma torcida de "pista" estaria fadada ao desaparecimento. Penso que com medidas nesse sentido, juntamente com campanhas de conscientização, valorização e divulgação de outras atividades exercidas pelas Torcidas Organizadas (como ações sociais) acabariam por gerar um controle maior sobre os membros das TO’s (na medida em que nenhuma torcida quer ficar sem exibir e utilizar seus materiais simbólicos), junto a isso uma conscientização e uma mudança de perfil daqueles que desejam se filiar a uma torcida.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
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